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Com transe, rito e música, "Híbridos" registra o Híbridos do Brasil

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Casal de cineastas franceses faz expedição espiritual pelo país e lança documentário

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Francisco Silva 20/03/2018 às 07:33 20/03/2018 às 07:33

1) Um ritual de "umbandaime" em Parelheiros, periferia paulistana, onde se dança com entidades da umbanda, como pretos-velhos e caboclos, enquanto se ingere o chá de ayahuasca do Santo Daime;

2) Uma mãe de santo francesa e nonagenária com terreiro em Duque de Caxias (baixada fluminense), seus "saravás" em sotaque carregado;

3) Um desfile de Carnaval nas ruas de Olinda e Recife, com elementos da religiosidade afro-brasileira emoldurados por casas coloridas e muros com anúncio da pinga Pitú;

4) Uma mulher que cai e no chão serpenteia o corpo, aparentando alguma possessão, enquanto lhe tocam e gritam "ungido de Deus ninguém toca" no monte Escada de Jacó, subúrbio carioca;

5) Um homem de casaco Adidas dá passes espíritas (as mãos ondulando ao redor da pessoa, sem tocá-la) na Casa do Caminho, em Ibiúna (SP);

O que o casal de cineastas franceses Vicent Moon e Priscilla Telmon descobriu, nos quatro anos em que pesquisaram o mosaico religioso de nosso país: impossível não marcar aqui "todas as alternativas" --e muitas outras, aliás.

Os ladrilhos religiosos que formam "Híbridos", documentário que estreia nesta quinta-feira (15), mostram a diversidade da fé brasileira.

Não se trata de um documentário clássico, com o típico quadro de entrevistados falando à frente de uma estante de livros para mostrar como eles são ilustrados.

São 88 minutos com 20 rituais, como os descritos acima. Ninguém "esclarece" o espectador, não há legenda para explicar o que passa na tela --os lugares só são especificados no fim.

"Explicar tudo de maneira superficial para quê?", indaga Telmon, para quem o filme é mais "intuição do que intelecto". "Como podemos explicar esses rituais com uma frase?"

"Hoje o cinema é muito intelectual. Não se usa o cinema melhor para fazer uma viagem astral", diz Moon, que em seu site se define como "realizador independente" que "viaja pelo mundo atrás de sons, de shows de rock a rituais xamânicos raros" --ele gravou filmes com Arcade Fire e R.E.M., e, no Brasil, trabalhou com Elza Soares, Ney Matogrosso e Tom Zé.

Seu apego pelo cancioneiro devoto verde-amarelo explica um bocado de "Híbridos". Como, por exemplo, a sub-representação dos evangélicos, camada religiosa que mais cresce no país (30% da população) e que só aparece num quadro do filme.

Em compensação, cinco filmetes são dedicados a ritos indígenas, e metade do documentário foca em experiências de crenças afro-brasileiras.

"A musicalidade afro é linda, a do Santo Daime, a católica... Mas não tenho nenhum amor pela música evangélica. Cada filme é "um ato poético, e todo ato poético é a subjetivação da realidade", diz Moon numa praça no centro paulistano (a entrevista havia sido marcada num café, mas ele o achou barulhento e não gostou "da energia dali").

Telmon conta que em seu país natal não há nada remotamente parecido com a pluralidade de credos brasileiros. Já Moon diz ter tirado uma lição após quatro anos no Brasil: "Por que esse amor dos franceses pelo Brasil? Por que pesquisar algo que nunca vão entender, mas que está no ar? Entendi que os rituais são as maiores celebrações da vida".

A dupla acompanhou cerca de cem experiências religiosas. Só 20% entrou no filme. Mas já que estamos falando de "trans-cinema", como lembra produtora Fernanda Abreu, o resto não foi para o lixo. No site www.hibridos.cc, há curtas que ficaram de fora.

ORDEM E PROGRESSO

Em Porto Alegre, uma casa positivista cujo líder diz ser "um templo religioso, muito embora não seja um templo teológico". Ali, em vez de imagens de santos, há retratos de cientistas. O lema do francês Augusto Comte, "ordem e progresso", impresso na bandeira brasileira, é a máxima.

"Me sinto um centro eclético da fluente luz universal", afirma o ex-psicólogo Janderson Fernandes, atual Sri Prem Baba, que virou guru espiritual na Índia. Lá foi batizado: Sri de senhor, Prem de amor divino e Baba de santidade. Entre os devotos, Reynaldo Gianechinni e Bruna Lombardi.

Se Moon e Telmon saíram da temporada com alguma religião? "Muitas", afirma a diretora, e ri. Psicotrópicos, diz, são a janela aberta da vez.

Na hora de gravar, eles se revezavam: enquanto um toma ayahuasca, o outro assume a câmera. De um dos ritos, nenhum: um transe tântrico com pessoas peladas e enlameadas. "Não foi possível. A argila, a câmera... Não combinavam", ri Telmon.

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Francisco Silva

Proprietário da web Rádio Amazônia Central, Acadêmico em sistemas de informação 8º período (1/2018) e Editor de imagens. WhatsApp (69) 9 9283-9969
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